sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

A SENDA DE NOSSOS PAIS



Lá fora apenas uma linha serve para definir o que é gasoso e liquido no horizonte cinza de Porto Alegre. O que é o céu gaúcho e o Rio Guaíba que vamos atravessar num barco, só de onda, só de vadiagem, só de tédio e vazio enquanto dá a hora do nosso ônibus na madrugada que nos levará um pouco mais ao sul do Sul.

Ontem nessa crônica foi um dia feliz e eu bebi bastante, apesar de estar em Porto Alegre, uma cidade que me espanta os cabelos, uma cidade que não me deixa a vontade e que apesar de desconhecer os motivos dessa exasperação fugaz eu desconfie de que seja por osmose familiar, pois meus pais fugiram daqui assim que puderam. Hoje é um dia triste, pois estou me forçando a ir ver uns tios e primos distantes. Me obrigando a fazer o caminho inverso de mamãe e papai, algo que os manuais de rebeldia de gaveta não recomendam.

Você nunca andou de barco e fotografa tudo. O senhor a minha frente prossegue com a conversa de recepção que começamos na fila das passagens: “Fiz uma conferência, acho que em 74, lá em Sarandi, na prefeitura...”. Eu havia falado de Sarandi para ele...

Então, a partir daí, o pequeno fio de dialogo entre o velho e eu se perde, ou eu é que o deixo solto porque me lembro de minha avó e de que ela, em 1974, trabalhou na prefeitura da cidadezinha do interior gaúcho como copeira. Em 1974, seja lá o que esse velho foi falar em Sarandi certamente Dona Iracema lhe serviu água e café. Não comento isso, mas meio de onda, meio a sério, pergunto se ele não quer que eu pegue um café ou uma água ali na cantina. Ele diz que não. Desfila uma garça a beira do rio agora, passa um homem carregando uma corda grossa, passa um barco que não é o nosso, você bate outra foto.

Imagino Dona Iracema com os cabelos bem pretos, magra e muito morena, cuidando da copa e confabulando pró e contra políticos da então minúscula Sarandi, prestes a perder o emprego justamente por isso, por tramar nos bastidores mesmo sendo copeira. De repente, sinto que esse senhor aqui, conversando enquanto você fotografa tudo é a coisa mais próxima de minha avó que vou encontrar no Sul e penso que não devemos viajar cinco horas só para ouvir lembranças emprestadas de primos e pagar um pedágio para o esquecimento. Me sinto bem ao lado de um homem que hipoteticamente só passou ao lado dela e quem sabe até se não a paquerou ou lhe deu gorjetas.

Penso ainda na passagem de Chico Buarque, em Irmão Alemão, quando ele atravessando o atlântico de avião em busca do tal irmão germânico perdido escreve que o pai fez a mesma travessia que ele faz ali, só que de barco, quando jovem. Passa mais um e outra vez não é o nosso. Você espanta a garça solitária com as fotos, quase cai devido ao bater de asas da ave e imita um passo de dança para disfarçar o possível tombo, chove. Sempre chove nas fantasias. Você entra correndo na sala envidraçada e tira uma foto minha e do velhinho.

“Olha só!”, você me diz mostrando a câmera, “nessa foto você está a cara do seu pai”. Vejo no visor e me dou conta de que é verdade, de que estou a cara do meu pai quando se casou com minha mãe, com o mesmo rosto de quando fugiram daqui. Sempre tentamos fugir de nossos pais de uma forma ou de outra, evitar seus pecados e maninas, mas parece que todos os caminhos nos levam aos sobrenomes, aos álbuns de família, aos mesmos narizes, maneirismos, vícios e porque não, as mesmas fugas.

Desisto de ir ver os parentes, bebo um café imaginário com minha avó e me despeço do senhor ali a espera do catamarã. Digo que esqueci algo no hotel. “Mas e o barco, e a chuva aí fora?”, ele pergunta. Na rua nem os guarda-chuvas colorem o dia. Porto Alegre é mesmo uma tristeza...


Cid Brasil